Final de ano vem sempre aquele sentimento de balanço… “O que você fez?”
Posso afirmar que este ano foi um ano de realizações, onde fui completando, aos poucos, o checklist pra me tornar um brasileiro médio.
A última vez que eu planejei me parecer mais com um brasileiro médio foi na virada de 2019/2020, botei como objetivo acompanhar futebol e meu time: o Ferroviário.
Agora não foi desse jeito. Não planejei tirar a carteira de motorista neste ano de 2024 especificamente. Mas foi necessário. Com a chegada do nosso segundo bebê (não planejado, mas não indesejado) era chegada da hora de tirar a CNH. Com uma conjunção de fatores proporcionada pelo meu novo emprego (temporário) como APM do IBGE pude realizar esse objetivo.
Eu acho engraçado me ver dirigindo hoje. Não porque fui avesso à dirigir. Aliás, muito pelo contrário, eu estou na euforia de quem tem a PPD e qualquer oportunidade que tiver de estar ao volante eu aproveito. Mas é porque eu não conseguia me ver dirigindo até começar a autoescola.
Imaginava sim, pegando um carro e ouvindo o som no talo, mas daquele jeito meio cinematográfico/juvenil e não fazia a menor ideia de como funcionava uma embreagem, de como colocá-lo em movimento dentre essas coisas.
Um choque de realidade era ver meus amigos e colegas de infância habilitados (uns já estão formados) rodando pra cima e pra baixo de carro nos Instagram da vida (mal que muitos héteros tem de postar foto atrás do volante), mas acho que o que mais pegou foi quando minha irmã mais nova tirou a CNH antes de mim e com isso podia pegar o carro da minha mãe e sair com ele.
Nunca tive interesse em aprender a dirigir sem passar pela autoescola e correr o risco desnecessário de ser parado numa blitz e trazer dor de cabeça pra todo mundo. Dirigir é uma habilidade necessária no mundo rápido de hoje. Seja por comodidade (como é bom não precisar caminhar léguas ou depender de carona pra chegar no trabalho) ou em caso de uma emergência (como quando minha mãe caiu na calçada e eu não tinha como levá-la pra UPA). Então tirar a carteira de motorista era uma questão de tempo. Não sabia quanto tempo. A resposta foi: 25 anos.
Tem algo poético em atingir alguns marcos até uma data redonda como os 25. Arranjar um emprego, casar, ter o primeiro filho… E agora, dirigir. Eu tento não me cobrar em algumas coisas que supostamente faltam como ter um diploma e publicar um livro. Ter um emprego fixo entra nessa lista também.
Minha carteira de trabalho foi assinada 3 vezes até hoje. A primeira vez em 2017 como Recenseador do Censo Agro daquele ano, o que durou somente 28 dias. A segunda vez foi como Auxiliar de Escritório (a.k.a. Recepcionista) na Policlínica de Quixadá, um consórcio público dos municípios da região, entre 2021 e 2023, uma experiência que me rendeu muito conhecimento sobre a saúde pública e sua gestão, além de sonhos e projetos para melhorar o SUS (incluindo uma promessa feita junto com meu amigo David que nunca será esquecida: de revolucionar e consertar a saúde pública do Brasil). E a minha experiência atual, desde novembro do ano passado, como Agente de Pesquisas e Mapeamento do IBGE.
Eu sou filho de servidores públicos. Meu pai trabalhou 33 anos no Banco do Brasil e minha mãe foi durante 15 anos servidora do Estado do Ceará. Não que o passado dos meus pais me defina, mas me inspira. Talvez eles não tivessem o pensamento que eu tenho da vontade de ser servidor público. Podia ser, pra eles, um trabalho com segurança e bons salários. Mas eu QUERO ser servidor público.
Mesmo tendo passado por coisas negativas na minha experiência atendendo o público (ainda mais se tratando de SUS), eu me sentia realizado atendendo aquele público sabendo que eu estava prestando um serviço para a sociedade que pagava meu salário.
Foi com esse sentimento que eu prestei os dois últimos concursos do Banco do Brasil e, mais recentemente, o CNPU (concorrendo para o IBGE). O sentimento de que eu nasci para ser servidor público. No caso do último concurso do Banco do Brasil eu até fiz uma quantidade até boa de questões (mesmo sem ter estudado) mas zerei todas as questões de matemática e por isso fui desclassificado. Foi um baque muito forte pra mim.
Eu não esperava que passaria justamente por não ter estudado, mas não ter tido nem a chance de concorrer me deixou muito triste.
Quando saiu o edital do Concurso Público Nacional Unificado (CNPU) eu já estava trabalhando no IBGE e conheci o que é trabalhar nesse órgão. Um órgão de Estado, que realiza pesquisas e coleta dados e informações que vão embasar as políticas públicas que podem mudar o País…
A Superintendência do IBGE no Ceará é um prédio no Benfica que é a mais perfeita materialização do funcionalismo público e uma joia parada no tempo, com TUDO por lá transpirando anos 90 e início dos anos 2000… Paredes, piso, azulejos, forro, divisórias, salas, tipografia…


Não se engane, estou falando somente da arquitetura. O IBGE é, sim, moderno, tanto em tecnologias quanto em recursos humanos e presta o seu serviço com excelência, credibilidade e competência, como é um dos maiores órgãos estatísticos do mundo.
E desde que entrei (na agência de Quixadá mesmo, que existe, só fica meio escondida) eu me encontrei: é aqui onde eu quero estar.
E por isso fiz o CNPU concorrendo às vagas do IBGE nas 5 regiões. Onde der pra eu passar estou indo. E após a inscrição eu deveria ter me preparado mais, mas não o fiz.
Das 5 regiões que inscrevi, somente atingi a nota de corte da correção da redação para o Norte. Uma vitória! Afinal, eu estudei muito pouco ou quase nada (deveria ter me concentrado em Direito Administrativo) e consegui ficar entre os 315º colocados de sei lá quantos milhares.
Outra vitória pessoal foi ter exorcizado o demônio da prova de matemática do Banco do Brasil acertando 13 de 15 questões. Coloquei na minha cabeça que tentaria e quebraria a cabeça com essas questões até o último minuto, nem pra isso eu descobrisse/inventasse o Cálculo como se fosse o primeiro a pensar nele.
Literalmente chorei de emoção depois de fazer uma questão que envolvia potenciação e etc. e ver que a resposta que encontrei fazei parte das alternativas. Quando saiu o gabarito confirmei: Acertei.
Mas vou pagar por ter estudado pouco as outras matérias (especialmente Direito) provavelmente ficando de fora do cadastro de reserva. Não vai ser dessa vez, mas eu não vou desanimar. Até porque a minha motivação se mostrou pra mim essa semana.
Agora que tenho CNH posso conduzir o carro oficial para realizar as pesquisas. E muitas vezes preciso me deslocar para outro município porque a agência de Quixadá atua em grande parte do Sertão Central, não somente em Quixadá. Às vezes durante o dia, às vezes durante a noite.
Tenho orgulho em ser um motorista que respeita as leis de trânsito. Não só porque dirijo um veículo oficial mas é porque precisamos manter a civilidade enquanto conduzimos caixas metálicas de 1 tonelada a 80km/h. Nem todos pensam assim, infelizmente.
À noite percebi 3 tipos de motoristas:
– os que baixam a luz ao cruzar com outro veículo (que é como deve ser, inclusive há placas na pista que dizem isso;
– os que não se importam e ficam com o farol alto o tempo todo;
– e os que ou fingem se importar, ou não tem noção, e baixam a luz ao se aproximar mas ligam o farol alto antes de passar pela gente.
Esse último me dá nos nervos mais do que os do segundo tipo. Esses 3 tipos já havia reparado enquanto era passageiro. Mas como motorista descobri um 4º tipo ainda mais irritante:
Os que continuam com farol alto enquanto estão atrás da gente.
Esse é o pior de todos porque, mesmo sendo contra se vingar no trânsito (do tipo: “vou ficar com a luz alta também já que você não baixa a sua”) os do segundo tipo a gente tem como pelo menos avisar que estão com o farol alto e assim, dar uma chance pra essa pessoa se corrigir. Mas o do 4º tipo não podemos fazer nada a não ser dar passagem e mandar essa pessoa pro mais longe possível.
Outra coisa que descobri dirigindo (e principalmente à noite) é que dirigir não é uma atividade fácil. Tudo bem que com a prática vamos pegando macetes, mas não podemos descuidar por nenhum instante. Como eu disse, são latas de 1ton a 80km/h. Não é brinquedo. E por isso devemos estar atentos o tempo todo.
Por isso dirigindo 150km quase todo dia eu fico cansado no final do expediente. Porque é um estado de alerta constante, calculando a todo tempo as variáveis e os nossos movimentos e prevendo o dos outros.
Pra mim, que estou de certa forma começando agora, são breves os momentos que tenho para divagar ou pensar fora do trânsito. Ainda curto um sonzinho, vou escutando minhas músicas e às vezes bate o pensamento com força.
Não me lembro agora qual música tocava mas veio imediatamente o pensamento de “O que eu devo fazer com a minha vida” quando lembrei que mais cedo, durante aquele dia, a minha filha estava brincando e achou um controlezinho remoto. Ela está começando a falar mais agora e às vezes consigo entender uma coisa ou outra que ela está querendo dizer.
Ela colocou o controle na orelha e falou algo como “Bodia! Bodia!” e saiu andando… É muito fofo ver ela fazendo isso. Eu não tava preparado para ouvir o que ela continuou falando: “aja bibibidododo pepipipo GeÉ” (não foi exatamente assim o começo, mas sem dúvida foi assim no final); e ela repetiu, então eu tive certeza que ela estava me imitando: “Bom dia! Sou o Matheus do IBGE…” quando estou falando com os informantes no telefone! Aquilo me encheu de orgulho no momento mas foi mais tarde que esse fato, de fato, bateu.
E pensando nisso eu comecei a chorar no carro, vendo que eu sou o exemplo dela e eu tenho que dar condições pra nossa família viver com segurança. Que eu quero ser servidor efetivo no IBGE. E que até agora não tinha feito por onde.
É essa a minha motivação para estudar, perseverar e passar no próximo concurso. Ouvir mais minha filha brincando de ser do IBGE como o pai dela e saber que sou muito feliz sendo o que sou na minha família e no meu trabalho, que é a serviço do País.


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